Por: Matheus Gama

Dirigido por: George Miller

Escrito por: George Miller, Brendan McCarthy e Nick Lathouris.

Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne, Nathan Jones, Zoë Kravitz, Rosie Huntington-Whiteley, Riley Keough, Abbey Lee, Courtney Eaton.

Sinopse: Após ser capturado por Immortan Joe, um guerreiro das estradas chamado Max (Tom Hardy) se vê no meio de uma guerra mortal, iniciada pela Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) na tentativa se salvar um grupo de garotas. Também tentando fugir, Max aceita ajudar Furiosa em sua luta contra Joe e se vê dividido entre mais uma vez seguir sozinho seu caminho ou ficar com o grupo.

Em 1979 o cineasta George Miller lançava o seu primeiro filme, Mad Max, no qual se tornou uma trilogia, que inspirou muitos cineastas até o presente momento, agora em 2015 ele retorna com a franquia para um quarto filme e mostra que não só amadureceu como diretor, mas que muitos cineastas como Joss Whedon do recente Vingadores 2, tem muito o que aprender.

Miller trás um filme frenético do começo ao fim, fazendo jus ao universo no qual ele é ambientando, um mundo insano, onde o próprio protagonista se questiona logo no começo, o que seria mais louco, ele ou o mundo lá fora. É durante esse primeiro momento que conhecemos o Max, e Miller mostra que é o suficiente, o cineasta não perde tempo com explicações e diálogos longos, provando que a narrativa cinematográfica pode e deve fazer uso da linguagem visual.

Linguagem essa que acaba nos apresentando o universo e seus personagens ali presentes, começando por Max um homem que anda em uma linha perigosa e tênue da insanidade, enfrentando os seus demônios passados, aqui ele é feito de forma sensacional por Tom Hardy, que com poucas palavras usa o corpo para mostrar um homem perdido nele mesmo, como podemos perceber na forma em que ele caminha em certos momentos como se estivesse confuso, ou em suas expressões que mostram um homem louco e em certos momentos demostra que ali ainda tem um pouco de sanidade e compaixão.

Também conhecemos Nux aqui interpretado por Nicholas Hoult, e talvez o personagem com o tom mais emotivo e humanizado do filme, já que vemos de inicio um Nux insano e preso em seus ideais e crenças, onde acredita que morrerá para ir a Valhalla, onde segue e idolatra seu ídolo e líder, Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), um reflexo de nossa atual sociedade onde um homem em usa de crenças para criar exércitos de homens bombas. Assim Hoult cria um personagem que aos poucos começa a ter seus conflitos internos, sendo assim o mais complexo e sensível do filme.

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Já a Imperatriz Furiosa interpretada por Charlize Theron, que sem sombras de dúvidas faz o melhor trabalho de sua carreira neste filme, onde também com poucos diálogos usa da expressão corporal para criar uma personagem determinada e focada, vemos como exemplo um momento em que ela dirige e um guerreiro a questiona sobre a mudança repentina no trajeto, Theron mantém seu olhar fixo na estrada sem olhar para o individuo.

A última vez em que vi uma personagem feminina assim foi Sarah Connor (Linda Hamilton) em O Exterminador do Futuro 2, mas ainda assim afirmo que Furiosa vai mais longe e mais bem trabalhada, Miller mostra que as mulheres são o ponto forte do filme do começo ao fim, e digo mais, as “donzelas” em perigo, são os homens.

O filme com essa pegada feminista, dá uma bela lição em hollywood, onde vemos filmes de ação em que o “macho” é cara que resolve tudo e que as mulheres são meros objetos de desejo deles ou estão em um nível secundário da narrativa, vide um filme recente em que o próprio elenco fez piadas dizendo que a personagem feminina era uma “vadia”.

Mas não é só a pegada feminista de Mad Max que mostra que hollywood é problemática e decadente, o filme como um todo prova isso. Na primeira perseguição que acontece no filme você acaba por acreditar que aquela é melhor cena que você já viu na vida, mas logo outra sequência de ação surge, e é melhor ainda.

Miller faz algo que a grande maioria dos cineastas de filmes de ação, não sabem fazer ou tem tentado faze fatidicamente, aqui ele estabelece muito bem a geografia da Mise en scène. E todos os momentos ele sempre estabelece ao espectador o que está acontecendo e para onde as coisas vão se desenrolar, usando de planos abertos como recurso, e sem a necessidade de cortes e movimentos desnecessários constantemente, aqui ele deixa a ação para o que está presente no quadro, fazendo um filme tenso a cada momento e frenético sem cansar o espectador.

Esse ritmo frenético também se da por conta da diminuição dos frames por segundo, onde Miller já havia usado nos filmes antigos e volta a usar aqui criando uma dinâmica incrível. Dinâmica essa que é somada a montagem do filme de Jason Ballantine e Margaret Sixel que sempre deixam a narrativa em movimento, colocando o pé no freio em poucos momentos.

A trilha sonora de Junkie XL não só cria os momentos de tensão e emoção do filme, como também acompanha literalmente o ritmo do filme, já que Miller em certos momentos faz uso da trilha diegética, onde uma dos carros de Joe contém tambores e um guitarrista insano, fazendo a trilha ser não só um elemento a ser adicionado, mas sim algo presente diretamente na narrativa. A mixagem de som eleva a grandiosidade do filme, não só na música, mas também nos elementos, como explosões, batidas e etc., não me surpreenderia em ver essas duas categorias presentes em algumas premiações no decorrer do ano.

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Guitarrista do Capiroto em Mad Max

Outras duas categorias que devem disputar alguns prêmios, são o design de produção e a fotografia. O design de produção do filme de Colin Gibson é outro ponto forte do filme, pois não só cria um universo único, mas dá uma personalidade aos personagens ali presentes, a fotografia de John Seale também vai ao oposto dos demais filmes de ação, onde muitos filmes do gênero usariam de uma fotografia mais escura, aqui Seale cria um deserto vivo e hostil com uma paleta laranja e avermelhada, que contrasta com um azul frio das cenas noturnas, representando a solidão dos personagens que vivem neste ambiente.

Mad Max: Estrada da Fúria não é só um mero filme de ação, mas uma aula de como se fazer um filme do gênero, Miller serviu de inspiração com sua franquia original, mas, parece que não aprenderam bem, então ele retorna para mostrar como se fazer um filme grandioso, com um roteiro simples, linguagem visual bem trabalhada, personagens insanos em um mundo sem esperança alguma, além de dar um tapa na cara de produções milionárias, sexistas, que abusam de CGI e repetem a mesma fórmula de sempre.

Obs. Assista o filme e tire suas próprias conclusões, mas não deixe de conferir na maior tela possível com a melhor qualidade som, sua experiência cinematografia será muito mais prazerosa.

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